714 Milhões

Abril 29, 2009

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Para quem procura acompanhar especificamente as eleições na Índia, que decorrem até dia 13 de Maio (resultados a 16), podem aceder ao blogue 714 Milhões que, em conjunto com a Francisca Gorjão Henriques (jornalista do Público e participante do nosso curso), estou a coordenar numa iniciativa conjunta do jornal Público e do Instituto Português de Relações Internacionais.

Para poderem acompanhar com mais facilidade, as últimas mensagens vão aparecendo aqui na barra, do lado direito.

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A vida em Deli

Abril 27, 2009

Tim Tim no Tibete, o blogue de Luís Filipe Castro Mendes, Embaixador de Portugal em Nova Deli. A vida em Deli, com digressões pela Índia, pelo Sudeste asiático e pelo mundo da poesia.


Ao vivo no Museu

Abril 16, 2009

O Paulo Sousa, que nos fala e toca na aula deste Sábado, vai apresentar o seu novo disco no próximo dia 8 de Maio. Aqui segue a mensagem-convite para quem estiver interessado em assistir e ouvi-lo novamente com mais tempo:

 Olá,

Venho convidá-lo para o lançamento do meu CD intitulado “Ao vivo no Museu Oriente”. Este foi o resultado da gravação de um concerto a 18 de Janeiro deste ano com a colaboração do tablista Raimund Engelhardt. O lançamento terá lugar na Sala Lounge do Museu Oriente às 19h, no dia 8 de Maio, e irei tocar um pouco do repertório do CD.

Até breve
Paulo Sousa


Modi em grande

Março 30, 2009

Meet Narendra Modi, chief minister of Gujarat and the brightest star in the Hindu-chauvinist Bharatiya Janata Party. Under Modi, Gujarat has become an economic dynamo. But he also presided over India’s worst communal riots in decades, a 2002 slaughter that left almost 2,000 Muslims dead. Exploiting the insecurities and tensions stoked by India’s opening to the world, Modi has turned his state into a stronghold of Hindu extremism, shredding Gandhi’s vision of secular coexistence in the process. One day, he could be governing the world’s largest democracy.

Robert D. Kaplan, no seu tour indiano, aqui, no The Atlantic.

Inclui uma referência a Diu, nada favorável a Portugal e ao seu colonialismo na Índia:

As empires rise and fall, only their ideas can remain, adapted to the needs of the people they once ruled. The Portuguese, given only to plunder and exploitation, brought no ideas save for their Catholic religion, which sank little root among Hindus and Muslims. And so these ruins are merely sad and, after a manner, beautiful.


Ainda

Março 17, 2009

De Anand Giridharadas, o jovem e muito bom correspondente do IHT na Índia, ainda sobre o Slumdog, aqui:

The boom era now fading left two longings among India’s globalized rich. The first is a desire for recognition by the West, through magazine covers and Booker Prizes and Grammys. The second is a desire to show the world the most sanitized representation of India, not the stereotypical India mired in poverty and degradation, but an India as pristine as the elite’s own posh homes.

Sometimes international recognition and sanitization come in the same work, as in films like “Bride and Prejudice” and “Outsourced.” But on other occasions, what might be called the Slumdog Bargain has imposed itself: world acclaim came at the cost of celebrating a vision of India that the elite didn’t really want to see.


The Story of My Assassins

Março 14, 2009

Do editor do semanário Tehelka, Tarun Tejpal. Recensão na revista Himal, aqui:

Departing from the superficial level to which much Indian writing in English has been relegated in recent years, The Story of My Assassins is a superb treatise on contemporary India masquerading as fiction. Tarun Tejpal brings to life the grim realities of India’s socio-political underbelly, all the while telling a fascinating yet deeply disturbing story.


O nariz de Boyle é genial

Março 8, 2009

É verdade, o nariz de Boyle também cheirou bastante merda. Mas, ao contrário do que nos diz esta crítica azeda e injustificada (ler também as dezenas de comentários muito interessantes), não é um nariz de merda – é um nariz que cheira de tudo um pouco mas, acima de tudo, uma nova Índia.

Boyle consegue, de facto, a proeza de, em menos de duas horas, enumerar e explorar na tela praticamente todas as facetas mais negras da Índia de hoje. Está la tudo.

Está lá a galopante privatização dos espaços públicos de Bombaim, o desaparecimento das históricas Mills, os miúdos inofensivos a jogarem críquete a serem expulsos por polícias de cana em punho. O trânsito interminável representativo do colapso total das infra-estruturas urbanas, executadas sem segurança ou planeamento mínimo, mas com lucro máximo.

Está lá a polícia indiana cruel, obesa e corrupta, muitas vezes violadora dos direitos humanos, que recorre a choques eléctricos para torturar tão facilmente como preenche um formulário.

Está lá naturalmente a pobreza imunda e miserável, o lixo, as barracas intermináveis das favelas de Juhu que crescem incessantemente, com centenas de novos “outros” a chegarem diariamente do hinterland rural em que mais e mais agricultores sobre-endividados recorrem ao suicídio para escaparem à humilhação social.

Está lá o ensino público para além dos brilhantes IITs dos engenheiros, IIMs dos gestores e IISs dos cientistas. A sala de aula sobrelotada, os castigos físicos aplicados a Jamaal e ao seu irmão, as leituras de livros sobre três mosqueteiros franceses renascentistas totalmente despropositados nos subúrbios da Ásia do Sul do século XXI.

Na pessoa do host que apresenta e do público que assiste ao concurso, está lá a brutal condescendência, ironia e escárnio com que a classe média indiana olha para os outros (“ah, you are only a chaiwallah!“- risota geral), os “strivers”, que discrimina a espezinha, esquecendo-se que também já foi, um dia, como eles.  Que, ao ver Jamaal a moldar o seu próprio sucesso, a sua própria ascensão, procura enganá-lo, e depois o denuncia, insurgindo-se “It’s my show – it’s my fucking show“.

Está lá a merda, constantemente presente, nas latrinas públicas, na caça à assinatura de Bachchan – basta aliás ler Naipaul (An Area of Darkness), ou mesmo o mais recente Adiga (The White Tiger), para perceber que os dejectos e as fezes humanas informam necessariamente qualquer representação fidedigna da Índia contemporânea.

Está lá naquele raide que vitima a mãe de Jamaal, o violento nacionalismo hindu, o seu ódio anti-minorias, especialmente islamófobo (diz o host, com um olhar irónico para Jamaal, quando surge a questão sobre Rama: “religion, interesting!“). Mas tambem anti-Cristãos e anti-ocidental. Que varre a Índia perigosamente há duas décadas, com repercussões gravíssimas para a estabilidade e segurança interna. No filme, partilha créditos com o caso particular da xenofobia anti-imigrante do Shiv Sena, o movimento do orgulho marata que quer “Bombaim para os Mumbaikars”. Aquele raide é um soberbo “2 em 1”: contra imigrantes e contra muçulmanos.

Estão lá as crianças, vítimas de sempre, exploradas por gangues que lhes infligem macabras amputações e flagelos físicos para poderem render mais a cantar nas ruas (ver também o pedinte Monkey-Man em A Fine Balance, de R. Mistry). O recém-nascido que vale mais se estiver coberto de feridas e a chorar incessantemente.

Está lá a ignorância e desprezo a que Gandhi se encontra hoje condenado entre os indianos, os seus ensinamentos esquecidos, ultrapassados pela veloz “nova Índia” urbana e materialista, a sua importância reduzida a um par de sandálias e óculos, ou a uma face sorridente numa nota porca de mil rupias. (“Ghandiji – Oh, I’ve heard of him!“).

Está lá a prostituição infantil, as menores (embora geralmente nepalesas) exploradas como novas bailadeiras nos templos pós-modernos, caves iluminadas a flúor e animadas a batidas house, se não tiverem o azar de ir parar imediatamente ao maior “red light district” da Ásia.

Estão lá os turistas estrangeiros enganados, roubados e ridicularizados, vistos como as novas vacas sagradas ordenhadas sem escrúpulos por infinitos dólares e euros, num vale tudo que, por vezes, e mais e mais vezes, descamba na violação ou no homicídio.

Estão lá as novas mafias que dominam as urbes indianas, Bombaim em particular. Um sub-mundo luxuoso e florescente que vive da ilegalidade e de tráficos vários (droga, prostituição, influência, armas), muitas vezes confortavelmente incentivado pelas próprias estruturas do estado, e que depois ocasionalmente se transforma num monstro terrorista, como em 1993.

Está lá, por fim, a progressiva radicalização do Islão indiano, subtil, mas presente nas novas preces nocturnas e naquele grito final de Jamaal (“Allahu Akbar“, na versão original), deitado na banheira a transbordar de dinheiro – a religião como conforto que equilibra o progresso material pecaminoso.

Mas Boyle, sem deixar de nos apresentar estas Índias todas, também nos dá a conhecer uma outra, menos conhecida, mas igualmente importante para quem observa a rápida e ainda incerta transformação que o país atravessa actualmente.

Essa outra Índia é a da mobilidade social, em que as barreiras da casta e religião deixam de ser inultrapassáveis para relações amigas ou amorosas. Uma Índia em que o laço inter-religioso Latika-Jamaal encontra espaço para florescer.

Uma Índia em que as classes mais baixas, os miseráveis, não se limitam a persistir e a inovar para sobreviver, mas para emergir e progredir, reivindicando as suas próprias narrativas de sucesso. Em que o jeep que transporta o “milagre Jamaal”, acabado de ser torturado, a caminho da pergunta milionária final, é rodeado por multidões que, em vez de o invejar ou invectivarem, o celebram e apoiam. Em que toda a Índia, dos bairros de lata (que Latika prefere à loja de electrodomésticos para assistir ao programa final) às salas-de-estar ar condicionadas com os miúdos com pizza na mão em frente ao ecrã plasma, se une e reúne à volta do possível sucesso de Jamaal, que reconhece como seu, como o da nação inteira.