Excepção nenhuma, infelizmente

Março 14, 2009

O suplemento de Economia do Expresso (sem ligação) de hoje tem as  páginas centrais dedicadas ao impacto da crise financeira global na economia indiana, fazendo também um balanço dos principais investimentos naquele mercado emergente.

É sempre bom haver quem dedique alguma atenção à Índia e o Jorge Nascimento Rodrigues é uma das poucas pessoas que, na comunicação social portuguesa, o tem feito de forma consistente (o seu livro sobre a Batalha de Diu foi aliás já aqui recomendado, e um outro traduzido pela sua editora – Made in India – está na bibliografia geral do curso).

Mas o artigo procura argumentar o inargumentável: que a Índia sai reforçada da crise, porque relativamente menos abalada do que as outras economias asiáticias. Vem lá o argumento clássico da menor dependência das exportações (em 1997 ainda fez sentido…), bem como a possibilidade de a crise vir mesmo a reforçar o processo de outsourcing para a Índia (provavelmente influenciado neste artigo).

Mas vamos lá ao essencial, ao fundamental, ao que realmente deveria estar a ser noticiado: mais ou menos, relativamente ou não, esta crise está a afectar a Índia de forma violenta. E é essa a notícia – impossível de camuflar (o artigo abre com o subtítulo absolutamente fantástico que a economia deverá crescer a quase 7% em 2009… mas nos parágrafos seguintes, descai-se e vêm as previsões “pessimistas” – e muito mais realistas – de que talvez nem se chegue aos 3%! De qualquer forma, what’s the point? – como é que é, neste momento de profunda incerteza, é possível e mesmo interessante prever qualquer crescimento que seja?)

Porque é que isto acontece, não só neste artigo, mas em geral, na imprensa ocidental? Acima de tudo, por causa das fontes – a grande maioria das fontes consultadas, e as citações demonstram-no bem, são indianas (embora surja lá também o Prof. Viassa Monteiro, orador na nossa segunda sessão). E a excepção é o João Caiado Guerreiro da CCPI, uma Câmara de Comércio, a que não convém naturalmente nada traçar um panorama negativo sobre o mercado que aqui procura vender.

Ora bem, para quem lê diariamente a imprensa económica  e de referência indiana é assustador o silêncio a que esta crise está a ser votada (falei disto na última aula). Não olhemos sequer para o Governo e as autoridades públicas – na opinião pública indiana não há ninguém que tenha feito uma análise consistente e vindo a público (claro, estamos a um mês de eleições nacionais) afirmar que, com esta crise, se desmorona (ou pelo menos adia) todo o “sonho da superpotência Índia 2020” que tem sido vendido aos indianos nos últimos anos.

Ninguém, nem o mais realista empresário indiano, irá neste momento dizer à comunicação social (ainda por cima estrangeira) que as coisas estão péssimas, como realmente estão. Num pacto tácito, continuam a vender o sonho, esperando que os investimentos ocidentais continuem, e esperam para ver.

Aliás, o próprio artigo contém pistas que apontam para esta realidade: acaba com um parágrafo que enumera os duros factos da realidade (“bolsa devastada” por uma queda de 60% desde Janeiro, sector imobiliário em queda de 30%, moeda desvalorizada em 25%)…. “mas não estamos numa situação de pânico”, conclui o artigo quase que ironicamente, citando  Rajesh Chakrabarti, da Indian Business School!

Sobre as “parcerias” portuguesas na Índia, o mapa parece sexy, e realmente com o panorama desolador de há uns 5 anos, hoje há muito mais presença económica na Índia. Mas reparem num detalhe, extremamente simbólico: a Aerosoles, está lá assinalada, em Chenai…: há uns anos o “caso de sucesso” de investimento português na Índia. Hoje…

Adenda: Versões alargadas da reportagem (mais moderadas, a começar pelo título já com um ponto de interrogação bem menos peremptório do que a capa do suplemento de Sábado…), adicionadas hoje, Segunda-feira,  aqui e aqui.

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O nariz de Boyle é genial

Março 8, 2009

É verdade, o nariz de Boyle também cheirou bastante merda. Mas, ao contrário do que nos diz esta crítica azeda e injustificada (ler também as dezenas de comentários muito interessantes), não é um nariz de merda – é um nariz que cheira de tudo um pouco mas, acima de tudo, uma nova Índia.

Boyle consegue, de facto, a proeza de, em menos de duas horas, enumerar e explorar na tela praticamente todas as facetas mais negras da Índia de hoje. Está la tudo.

Está lá a galopante privatização dos espaços públicos de Bombaim, o desaparecimento das históricas Mills, os miúdos inofensivos a jogarem críquete a serem expulsos por polícias de cana em punho. O trânsito interminável representativo do colapso total das infra-estruturas urbanas, executadas sem segurança ou planeamento mínimo, mas com lucro máximo.

Está lá a polícia indiana cruel, obesa e corrupta, muitas vezes violadora dos direitos humanos, que recorre a choques eléctricos para torturar tão facilmente como preenche um formulário.

Está lá naturalmente a pobreza imunda e miserável, o lixo, as barracas intermináveis das favelas de Juhu que crescem incessantemente, com centenas de novos “outros” a chegarem diariamente do hinterland rural em que mais e mais agricultores sobre-endividados recorrem ao suicídio para escaparem à humilhação social.

Está lá o ensino público para além dos brilhantes IITs dos engenheiros, IIMs dos gestores e IISs dos cientistas. A sala de aula sobrelotada, os castigos físicos aplicados a Jamaal e ao seu irmão, as leituras de livros sobre três mosqueteiros franceses renascentistas totalmente despropositados nos subúrbios da Ásia do Sul do século XXI.

Na pessoa do host que apresenta e do público que assiste ao concurso, está lá a brutal condescendência, ironia e escárnio com que a classe média indiana olha para os outros (“ah, you are only a chaiwallah!“- risota geral), os “strivers”, que discrimina a espezinha, esquecendo-se que também já foi, um dia, como eles.  Que, ao ver Jamaal a moldar o seu próprio sucesso, a sua própria ascensão, procura enganá-lo, e depois o denuncia, insurgindo-se “It’s my show – it’s my fucking show“.

Está lá a merda, constantemente presente, nas latrinas públicas, na caça à assinatura de Bachchan – basta aliás ler Naipaul (An Area of Darkness), ou mesmo o mais recente Adiga (The White Tiger), para perceber que os dejectos e as fezes humanas informam necessariamente qualquer representação fidedigna da Índia contemporânea.

Está lá naquele raide que vitima a mãe de Jamaal, o violento nacionalismo hindu, o seu ódio anti-minorias, especialmente islamófobo (diz o host, com um olhar irónico para Jamaal, quando surge a questão sobre Rama: “religion, interesting!“). Mas tambem anti-Cristãos e anti-ocidental. Que varre a Índia perigosamente há duas décadas, com repercussões gravíssimas para a estabilidade e segurança interna. No filme, partilha créditos com o caso particular da xenofobia anti-imigrante do Shiv Sena, o movimento do orgulho marata que quer “Bombaim para os Mumbaikars”. Aquele raide é um soberbo “2 em 1”: contra imigrantes e contra muçulmanos.

Estão lá as crianças, vítimas de sempre, exploradas por gangues que lhes infligem macabras amputações e flagelos físicos para poderem render mais a cantar nas ruas (ver também o pedinte Monkey-Man em A Fine Balance, de R. Mistry). O recém-nascido que vale mais se estiver coberto de feridas e a chorar incessantemente.

Está lá a ignorância e desprezo a que Gandhi se encontra hoje condenado entre os indianos, os seus ensinamentos esquecidos, ultrapassados pela veloz “nova Índia” urbana e materialista, a sua importância reduzida a um par de sandálias e óculos, ou a uma face sorridente numa nota porca de mil rupias. (“Ghandiji – Oh, I’ve heard of him!“).

Está lá a prostituição infantil, as menores (embora geralmente nepalesas) exploradas como novas bailadeiras nos templos pós-modernos, caves iluminadas a flúor e animadas a batidas house, se não tiverem o azar de ir parar imediatamente ao maior “red light district” da Ásia.

Estão lá os turistas estrangeiros enganados, roubados e ridicularizados, vistos como as novas vacas sagradas ordenhadas sem escrúpulos por infinitos dólares e euros, num vale tudo que, por vezes, e mais e mais vezes, descamba na violação ou no homicídio.

Estão lá as novas mafias que dominam as urbes indianas, Bombaim em particular. Um sub-mundo luxuoso e florescente que vive da ilegalidade e de tráficos vários (droga, prostituição, influência, armas), muitas vezes confortavelmente incentivado pelas próprias estruturas do estado, e que depois ocasionalmente se transforma num monstro terrorista, como em 1993.

Está lá, por fim, a progressiva radicalização do Islão indiano, subtil, mas presente nas novas preces nocturnas e naquele grito final de Jamaal (“Allahu Akbar“, na versão original), deitado na banheira a transbordar de dinheiro – a religião como conforto que equilibra o progresso material pecaminoso.

Mas Boyle, sem deixar de nos apresentar estas Índias todas, também nos dá a conhecer uma outra, menos conhecida, mas igualmente importante para quem observa a rápida e ainda incerta transformação que o país atravessa actualmente.

Essa outra Índia é a da mobilidade social, em que as barreiras da casta e religião deixam de ser inultrapassáveis para relações amigas ou amorosas. Uma Índia em que o laço inter-religioso Latika-Jamaal encontra espaço para florescer.

Uma Índia em que as classes mais baixas, os miseráveis, não se limitam a persistir e a inovar para sobreviver, mas para emergir e progredir, reivindicando as suas próprias narrativas de sucesso. Em que o jeep que transporta o “milagre Jamaal”, acabado de ser torturado, a caminho da pergunta milionária final, é rodeado por multidões que, em vez de o invejar ou invectivarem, o celebram e apoiam. Em que toda a Índia, dos bairros de lata (que Latika prefere à loja de electrodomésticos para assistir ao programa final) às salas-de-estar ar condicionadas com os miúdos com pizza na mão em frente ao ecrã plasma, se une e reúne à volta do possível sucesso de Jamaal, que reconhece como seu, como o da nação inteira.


Nova Índia

Fevereiro 7, 2009

“É um elogio à Índia”, diz Constantino H. Xavier, investigador no Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), que viveu quatro anos em Nova Deli até 2008. “Vem demonstrar uma nova Índia, Gatsbyana, com a assunção do individualismo e da ascensão social.” O que parecia uma impossibilidade até há pouco tempo, no país das castas, do determinismo social. “A história do filme é fantástica mas bastante real”, um reconhecimento da “grande capacidade de persistência” dos indianos. O protagonista “ganha o concurso graças aos saberes que acumula na vida e não numa escola de elite. A Índia hoje é isso: pessoas que vêm do nada, de zonas rurais subdesenvolvidas e esquecidas, e que conseguem subir na vida”, conclui.