Os sadhus ocidentais

Encontrei alguns deles pela Índia – são os ocidentais em busca de algo diferente, de uma nova vida, estes ao longo do Rio Narmada:

In her long journey from Amarkantak in Madhya Pradesh to the Gulf of Cambay, the Narmada traverses 1,312 kilometres dotted with temples. Like the Ganga, this ancient river has thousands of devotees, many of them from far-off lands. They are the ‘gora babas’ or white sadhus who lead the ascetic life — of meditation, a frugal diet and the occasional chillum

As fotos que vi na edição impressa do jornal testemunham que estes “White Babas” são realmente dedicados à sua causa. Nesta coluna da revista Atlântico, de 2006, escrevi sobre os que são bem mais superficiais, e em muito maior número:

Neo-Orientalismo

Jonas, um jovem sueco de tez clara e cabelo louro, tenta ignorar o gáudio com que é recebido nas ruas de Jaisalmer, nas profundezas do deserto do Rajastão. Quase desnudado – uns trapos cobrem-lhe as partes íntimas, descalço e barbudo, percorre as ruelas entoando cânticos religiosos hindus. As crianças atiram-lhe areia, os adultos sorriem em condescendência e os mais idosos parecem feridos e escandalizados perante o espectáculo escandinavo.

Jonas não é um caso único. Sofre de um complexo de identidade em rápida expansão nos países ocidentais e que é observável na sua plenitude na Índia, há séculos o berço predilecto do exotismo, do misticismo e terreno fértil para o Orientalismo. Pessoas como o Jonas procuram a Índia como um refúgio – uma fuga da família, dos fiordes, mas também da democracia, da igualdade, da modernidade. Jonas vem à procura de uma Índia que não existe para tentar escapar à sua própria existência.

(…) Os Jonas que percorrem a sua Índia imaginária não sabem de onde vêm e muito menos para onde vão. Há que salvá-los e impedir que o seu neo-Orientalismo, relativista e maniqueísta, se torne dominante. Para isso, é necessário construir uma relação descomplexada com os nossos próprios valores – intrinsecamente ocidentais, porventura universais: por exemplo, a igualdade entre todos os indivíduos, independentemente do género, origem social ou grupo étnico. Ao contrário do que muitos pensam, esta sinceridade facilitará a interacção com a diferença, seja na Índia hindu, no Paquistão islâmico ou no Sri Lanka budista. Seremos levados mais a sério e mais respeitados. E não ridicularizados e hostilizados como nas ruelas de Jaisalmer.

Uma resposta a Os sadhus ocidentais

  1. Sérgio Mascarenhas diz:

    Engraçado. A vantagem de se ser português em vez de sueco é que se têm sempre uns dados curiosos para pôr as coisas em perspectiva. Como o de que primeiro indiano (documentado) a converter-se ao cristianismo por mão portuguesa foi um Sadhu, o Miguel das fontes portuguesas. A atracção do exótico funciona nos dois sentidos…

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