Santos, pecadores, e um olhar pela lombada

                      Entrevista no Público de hoje a Suketu Mehta, autor       deste livro      

               narrativa realista de 2004.

Uma vez uma criança veio até ao meu táxi com Maximum city: “Tem que ler este livro, tem tudo sobre Bombaim.” Vendia-o por 600 rupias. Eu disse: “600? Sabes que fui eu que o escrevi?” E ele: “Então fica por 400.”

http://jornal.publico.clix.pt/magoo/noticias.asp?a=2009&m=05&d=08&uid=&id=305677&sid=58577

Ver imagem em tamanho real“In Maximum City, Suketu Mehta has given us a brilliant book. He writes fearlessly about the horror and wonder that is Bombay. One by one, he reveals its multiple personalities: maleficent Bombay, bountiful Bombay, beckoning temptress of hope, manufacturer of despair–city of dreams and nightmare city. Best of all, reading this book helps one understand why Bombay can be an addiction.” – Rohinton Mistry, um indo-canadiano de 1ª geração, parsi  

   “Quite extraordinary – Mehta writes about Bombay with an unsparing ferocity born of his love, which I share, for the old pre-Mumbai city which has now been almost destroyed by corruption, gangsterism and neo-fascist politics, its spirit surviving in tiny moments and images which he seizes upon as proof of the survival of hope. The quality of his investigative reportage, the skill with which he persuades hoodlums and murderers to open up to him, is quite amazing. It’s the best book yet written about that great, ruined metropolis, my city as well as his, and it deserves to be very widely read.” – Salman Rushdie  

  “Mehta writes with a Victorian novelist’s genius for character, detail, and incident, but his voice is utterly modern. Like its subject, this is a sprawling banquet of a book, one of the most intimate and moving portraits of a place I have read.” – Jhumpa Lahiri, americano de ascendência bengali

“Suketu Mehta has done the impossible: he has captured the city of Bombay on the page, and done it in technicolor. Like Zola’s Paris and the London of Dickens, it will be difficult for me to visit Bombay without thinking of Maximum City and the enormous delight I had when I inhabited its pages.” – Abraham Verghese, professor em Stanford, nascido na Etiópia de pais do Kerala,…

…e cristão ortodoxo siro-malabar – igreja que diz ter as suas origens em São Tomás Apóstolo, que terá ido à Índia no ano 52 (e é mais conhecido por ter inicialmente duvidado a resurreição…).     O problema com estes sírio-malabares é que podem ser confundidos com os siro-malankaras, outra igreja católica que segue o rito de Antióquia e tem 500 mil fiéis na Índia, (a malabar, muito maior, com quase 3 milhões de seguidores, segue o rito caldeu)… 

Santa Alfonsa (da Imaculada Conceição), canonizada em Outubro passado, era siro-malabar… Na net diz-se que foi a segunda indiana a ser santa,  o primeiro tendo sido, em 1995, o goês Joseph Vaz, o Apóstolo do Ceilão (sécs XVII/XVIII).

Posso compreender que não se inclua S. João de Brito, que embora tenha passado uma grande parte da vida na Índia e tenha morrido no Tamil Nadu, sempre era de boas famílias alfacinhas.Ver imagem em tamanho real

Mas e Gonsalo Garcia?, nascido perto de Bombaím, de pai português e mãe do Karnataka. Porque a sua actividade missionária foi fora da Índia, nas Filipinas e Japão, onde morreu crucificado pelos shoguns de Kyoto? Também não faz sentido considerá-lo um santo português. Daí que na wiki, na entrada ‘Lista de santos portugueses’, seja o único a vermelho, sem entrada…)  De qualquer forma, Alphonsa é certamente a primeira mulher santa.   No início as duas igrejas eram a mesma, mas acabaram por se separar. Diz a wikipedia que, devido à “latinization policy of the Portuguese, the Church in Kerala was divided in two; the group who rejected the Catholic ecclesiastical authorities eventually became known as the Malankara Syrian Orthodox Church.”

Na mesma wiki – e aqui, quem não concordar não caia em cima de mim mas vá antes corrigir no site, que acho que se pode… E, certo ou errado, é o que se pode ler sobre nós…:

“Saint Thomas Christians remained in communion with the Chaldean Church until their encounter with the Portuguese in 1498. With the establishment of Portuguese colony in Goa in 1510, several Roman Catholic missionaries came to Kerala, the most notable among them being St Francis Xavier, the co-founder of the Jesuit Order. While many were involved with missionary work, some Jesuits became actively involved in Latinizing the Syriac Liturgy of Addai and Mari. Under the Padroado agreement with the Holy See the Portuguese missionaries suspected the Indian Christians of heresy and schism and wanted to introduce the Latin customs and Latin manner of ecclesiastical administration, severing the East Syrian connection. Ver imagem em tamanho real

The last Syro Chaldean bishop in Kerala, Mar Abraham died in 1597. No other bishop was allowed to come.

     “Portuguese started a Latin diocese in Goa (1534) and another at Cochin (1558) in the hope of bringing the Thomas Christians under their jurisdiction. In a Goan Synod held in 1585 it was decided to introduce the Latin liturgy and practices among the Thomas Christians. In the Synod of Diamper of 1599 the Portuguese Archbishop, Don Alexis Menezes succeeded in appointing a Latin bishop to govern the Thomas Christians. The Portuguese padroado was extended over them.”

Para se compreender melhor (se se conseguisse ver; só dei por isto depois de publicado, e já não estou a encontrar o link. A igreja de Malankara, a roxo, cinde-se mais tarde em 5, das quais a siro-malankara, enquanto que a siro-caleia apenas se divie em siro-malabar e caldeio-síria…)

Nasrani, ‘cristão’:

“As the identification of “Christ” with Jesus is not accepted within Judaism, in Talmudic Hebrew Christians are called Notzri (“Nazarenes”), because Jesus is described in the New Testament as being from the city of Nazareth.

Among Arabs (whether Christians, Muslims or belonging to other faiths), as well as in other languages influenced by the Arabic language (mainly in Muslim cultures influenced by Arabic as the liturgical language of Islam), two words are commonly used for Christians: Nasrani (نصراني), and Masihi (مسيحي) meaning followers of the Messiah. Where there is a distinction, Nasrani refers to people from a Christian culture and Masihi means those with a religious faith in Jesus. In some countries Nasrani tends to be used generically for non-Muslim white people.Another Arabic word sometimes used for Christians, particularly in a political context, is Salibi; this refers to Crusaders and has negative connotations. 

The word Nasrani is generally understood to be derived from Nazareth through the Syriac (Aramaic). Ver imagem em tamanho realIn some areas of the Arab world, tradition holds that it derives from nasr (“victory”), and means “people of victory” in reference either to early successes of the Christian religion or to the initial Christian Ethiopian support for Muhammad during his early conflicts in Arabia. Nasrani is also sometimes said to derive from ansar, which means “disciple”. The Syrian Malabar Nasrani people are a Christian ethno-religious group from Kerala, India, possibly Jewish in Ethnic origin.”

Mas bolas, já estou completamente fora do assunto, o livro de Suketu Mehta…

“Along with V. S. Naipaul’s India: A Million Mutinies Now, Maximum City is probably the greatest non-fiction book written about India.” –Akhil Sharma, indo-americano de Delhi, também 1ª geração  Maximum City is the remarkable debut of a major new Indian writer. Humane and moving, sympathetic but outspoken, it’s a shocking and sometimes heartbreaking book, teeming with extraordinary stories. It is unquestionably one of the most memorable non-fiction books to come out of India for many years, and there is little question that it will become the classic study of Bombay.” – William Dalrymple

Ver imagem em tamanho real“Like one of Bombay’s teeming chawls, Maximum City is part nightmare and part millennial hallucination, filled with detail, drama and a richly varied cast of characters.

  

“In his quest to plumb both the grimy depths and radiant heights of the continent that is Bombay, Suketu Mehta has taken travel writing to an entirely new level. This is a gripping, compellingly readable account of a love affair with a city: I couldn’t put it down.” – Amitav Ghosh, autor bengali que escreve sobretudo em inglês 

Maximum City

3 respostas a Santos, pecadores, e um olhar pela lombada

  1. alcipe diz:

    Estive em Cochim e visitei igrejas siro-malabares, que em séculos passados foram partilhadas com os outros católicos (os siro-malabares também são católicos), de rito latino. Hoje estão separadas.

    A perseguição dos caldeus e siro-malabares pela Inquisição foi um facto, mas no século XVII ( porque também houve perseguições calvinistas, embora não seja politicamente correcto falar delas) no Kerala (e noutros lugares, como em Daca, Bengala) as duas comunidades católicas partilhavam lugares de culto e cemitérios…

  2. ken5z9mana diz:

    Já está corrigido o erro siro..lol.. E pus lá uma dessas igrejas. Incrível a quantidade de sites dedicadas a isto.
    “Em Dezembro de 2007, na Igreja Paroquial de Linda-a-Velha, foi celebrada a Eucaristia segundo o rito siro-malabar, em Malayalam. A natureza dialogante deste rito, mais longo do que o Latino, implica uma maior participação da assembleia, nomeadamente através das respostas cantadas.”
    Mas agora acho que é altura de nos virarmos então para os calvinistas…

  3. Sérgio Mascarenhas diz:

    A história é um pouco mais complexa e a inquisição desta vez tem pouco a ver com ela. Resumindo, na viragem do Século XVI para o XVII e na sequência da reforma católica do Concílio de Trento o Padroado tentou impôr aos cristãos não católicos a obediência ao Papa e o rito católico reformado. Isso foi feito no Malabar no célebre Sínodo de Diamper onde os cristãos de S. Tomé foram coagidos ou enganados para aceitarem aqueles dois objectivos. É de anotar que os cristãos de S. Tomé já estavam divididos em duas comunidades ao tempo da chegada dos portugueses em linhas não muito diferentes de uma cisão de castas.

    Seja como for, ao longo das décadas seguintes houve conflitos vários em torno deste ponto, o que levou à divisão da comunidade de cristãos de S. Tomé em vários sub-grupos. O grupo dominante acabou por se manter em obediência a Roma (via Padroado, é evidente) mas conservando o seu próprio rito, não aderindo ao rito saído do Concílio Tridentino. Estes representam uns 85% dos cristãos de S. Tomé se a memória não me falha.

    Ora é isto que muito frequentemente se esquece, é o peso dos números. No fundo a divisão foi uma divisão de «casta»: os cristãos de S. Tomé que recusaram a obediência ao Papa eram os de «casta» alta, a «casta» sacerdotal que tinha uma posição privilegiada na respectiva sociedade. A integração no Padroado iria privá-los da função religiosa e colocá-los a par dos demais cristãos malabares e abaixo dos padres portugueses. Ninguém gosta de perder privilégios…

    Muito aprendi sobre estas cisões e divisões com o Helder Carita quando andámos pelo Quêrala a explorar a presença arquitectónica indo-portuguesa naquelas terras. Um sítio absolutamente fascinante é Cotaião (Kotayam). Aí num espaço muito pequeno, uma colina apenas, existe uma série de igrejas cristãs de quase todas as sensibilidades. As igrejas antigas do Século XVI e XVII – nenhuma delas católica romana – são particularmente interessantes. Todas elas são de arquitectura indo-portuguesa, por sinal, o que marca bem a interligação entre os cristãos de S. Tomé e o Padroado. O conjunto acaba por ter afinidades com os complexos de templos hindus de várias seitas que existem no sul da Índia.

    E uma pequena história pessoal. Quando fui pela primeira vez a Cochim fui sem agenda. Decidi, e a Sede da Fundação concordou, ir sem nada marcado à procura de contactos depois de lá chegar.
    Deixadas as malas no Taj na ilha de Wellingdon (aprendi que era uma má opção que não mais repeti) dirijo-me para Forte Cochim. Armado com um guia de viagens vou parar ao Kachi Arts Cafe. É um espaço pequeno mas belíssimo com os melhores bolos da Índia (bolos à europeia, entenda-se).

    Pergunto pelo dono e este bem falar comigo. É um malabar de doti impecável de bom gosto e com aspecto distinto, relativamente jovem que, fiquei a saber, é casado com uma americana (daí os bolos).
    Meti conversa e expliquei ser português, a Fundação bem como os meus objectivos de estabelecer contactos com artistas e gente de cultura local. Ele laconicamente dá-me o contacto de um escritor e de um artista.
    No dia seguinte consegui entrar em contacto com estes dois. Ao terceiro dia volto ao Kachi Arts Cafe onde me reuno a uma mesa com o escritor e mais duas ou três pessoas. O dono senta-se na mesa ao lado a ouvir a nossa conversa. Esta desenrola-se em torno de possíveis colaborações, do que fazia em Goa, da disponibilidade da Fundação para financiar projectos, etc.

    A certo ponto o dono do café toma a palavra e diz mais ou menos isto: «Eu ainda hei-de fazer um filme sobre aquela cruz e não quero o dinheiro de ninguém para isso! O meu avô contou-me a história e eu hei-de fazer um documentário com o meu próprio dinheiro.», num tom de voz extremamente agressivo.
    Não percebi nada. Os outros tentaram deitar água na fervura e ele acabou por se pôr a andar. Depois o escritor explicou-me que ambos eram cristãos de S. Tomé dos que se tinham oposto aos portugueses e que a tal cruz era a do juramento que foi feito nesse sentido aí por 1633 se a memória não me falha. Junte-se a isto conflitos com o anterior bispo católico de Cochim e vi-me numa guerra daquelas que nunca acabam, como naquele filme do Kusturica.

    Fiquei siderado. Tinha saído de Goa a pensar que ía ter uns dias longe das histórias da Inquisição, das maldades dos tugas contra os pobres hindus, das Karmalices com que lidava dia-a-dia. E vejo-me metido noutra história idêntica 600km para sul. Fiquei a perguntar-me se haveria algum canto da Índia aonde pudesse ir sem me atirarem conversões, inquisições e outras confusões à cara.

    Bem, pelo menos o escritor e os demais tinham enterrado o machado de guerra. E vi-me na obrigação de me actualizar sobre o Sínodo de Diamper e o juramento da cruz para não voltar a ser apanhado em tais lutas numa beata ignorância.

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