Templo dos vistos

Há anos que estou para escrever sobre isto. Cheguei a ter a viagem planeada a este e outros sítios em que na Índia a tradição choca com a pós-modernidade, para uma reportagem para o Expresso. Com a revolução no Nepal, segui contudo para Catmandu. Cá vai então:

O Templo Chilkur Balaji também é conhecido por Visa Balaji Temple. Não é nenhum santuário patrocinado pela multinacional Visa. É sim um templo ao que acorrem semanalmente quase cem mil indianos que se candidatam a um visto de entrada para os Estados Unidos. Dão 11 voltas ao templo e, em caso de sucesso, regressam aqui para cumprirem a sua promessa, dando 108 voltas.

Um mochileiro sobre as origens desta tradição:

Why only 11 pradakshinas are prescribed for first-timers?
This practice has an interesting background. During 1969-70, borewells were dug up in the temple premises, to meet the temple’s water requirements; but the early trials ended in a failure. When the work began again, the priest , and two other devotees, offered prayers and started performing Pradakshinas. Water gushed out of the borewells, when they completed 11 pradakshinas. Subsequently, they offered 108 pradakshinas as thanks-giving gesture towards the Lord. This practice has been followed since then. (aqui)

O comentário muito técnico de um devoto, sobre a “especialização americana” de Sri Balaji:

this morning, i visited Chilkur Balaji temple near hyderabad. this god is said to be very powerful in helping people get VISAs, with specialization in US VISAs. (aqui)

E um vídeo:

Tudo isto vem no seguimento da aula 5, em que discutimos a modernização da classe média indiana. No resumo dessa aula perguntava retoricamente como seria possível um indiano acreditar em Rama e na bolsa Sensex ao mesmo tempo. Embora tivesse preparado os apontamentos para responder a essa pergunta, não os cheguei a partilhar por falta de tempo.

Cá está, portanto, o exemplo dessa fusão entre tradição e modernidade, entre espiritualidade e materialidade, que no quotidiano indiano se fundem muitas vezes numa só dimensão, ao contrário da rígida dicotomia com que são muitas vezes abordados e vividos no mundo ocidental.

Haverá outros exemplos, incluindo os grandes websites de matrimónio, os astrólogos virtuais, ou a nomenclatura sânscrítica e védica dos mísseis balísticos e outros equipamentos bélicos indianos (Agni, Dhruv, Brahmos, Nag etc.).

Fica aqui este, relacionado com a emigração indiana e os serviços consulares norte-americanos. Quando encontrarem um South Indian nos EUA, perguntem-lhe pois se a divindade Lord Balaji teve ou não uma influência decisiva na sua fuga para Ocidente.

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