Post, neo, alt colonialismo, versão indiana

No tópico sobre a democracia indiana Hoje, no Público eu afirmei:

«Foi a Índia independente que levou o sistema colonial* e o estendeu a todo o subcontinente, aplicando exactamente as mesmas receitas contra as quais supostamente se levantou. Ainda o está a fazer hoje, por sinal.» * (caiu-me mas aqui vai) às últimas consequências.

O Constantino desafiou-me a justificar esta passagem mas fazê-lo naquele tópico seria o contexto errado, daí começar este outro tópico sobre este assunto.

Começo com algumas memórias «anedóticas», sem uma ordem cronológica precisa:

Um médico goês contou-me que aí por 1963 a sua mãe recebeu a visita de um oficial da marinha (?) indiana para um chá. Ao longo da tarde ela terá tratado o senhor com a impecável civilidade das «boas» famílias goesas, enquanto ia gerindo a casa e a família nos termos habituais. À hora das despedidas houve o seguinte diálogo que reproduzo de memória:

Oficial: «Madame, why do you continue to address your family and servants in the language of the colonialist?»

A Senhora: «What language are we using, isn’t it the language of your colonialist?»

O oficial saiu sem mais palavra.

Numerosas conversas, eles, «o inglês é uma língua universal, o português é uma língua colonial». (Mas esta ideia bacoca e idiota já a vi ser defendida por portugueses, pelo menos quanto ao valor do inglês…)

Estou em Damão, de partida de regresso a Goa, e o Administrador põe à minha disposição um carro para me levar à estação de comboio. Acompanha-me um jovem sub-collector. Aqui tenho de fazer um parênteses para explicar alguns conceitos:

A Índia está dividida em collectorates, divisões administrativas chefiadas por um collector ou um sub-collector que não têm paralelo na nossa administração. O collector é a autoridade administrativa, financeira e mesmo judicial. Tem assim amplos poderes. Há collectorates com uma extensão imensa, equivalente a vários distritos portugueses (se não mesmo ao nosso território) e com populações de milhões de pessoas. Isto dá uma ideia do poder que detém um collector.

Os collectors são funcionários administrativos do corpo do Indian Administrative Service. Este é um serviço administrativo profissional com formação em escolas próprias com um acesso apertadíssimo, uma espécie de oficiais de carreira do funcionalismo público.

Ora bem, lá vou eu no carro a falar com o sub-collector, rapaz para uns vinte e poucos anos de parte incerta da Índia do norte, e pergunto-lhe o que pensa de Damão. Ele, com um entusiasmo juvenil cativante, diz-me que está ali há seis meses e que é o seu primeiro posto. Veio da escola do IAS e mostra-se excitadíssimo pela oportunidade de aplicar as receitas que ali aprendeu. Diz-me que a escola era excelente e o preparou para fazer tudo. Ele sabe o que é melhor para as populações, melhor do que elas poderão alguma vez saber – esses pobres e ignorantes camponeses, agricultores e camponeses, deduzo do que diz.

Baroda. Visito a repartição local do Archaeological Survey of India, o organismo indiano responsável pelo património e que tem a seu cargo uns 4.000 mil monumentos, incluindo vários em Goa, Damão e Diu. Falo com o engenheiro responsável pelos 7 monumentos de Damão e Diu e proponho entre outras coisas oferecermos apoio técnico à sua manutenção. Responde-me que isso é de todo desnecessário pois sabem perfeitamente o que fazer. Se nós precisarmos de assistência para a manutenção de monumentos noutros sítios, estão disponíveis. (Esta conversa teve outros aspectos curiosos mas que não são relevantes neste momento. Esta e muitas outras com pessoal do ASI, Directores Gerais incluídos – três, se a memória não me trai.)

Goa. Qualquer caso de direito privado submetido a um tribunal será resolvido com base no Código Civil português de 1867, o chamado Código de Seabra, nas disposições que não respeitem ao exercício de poderes administrativos ou soberanos, pois estas foram revogadas pelas disposições do direito indiano. O código não tem tradução ou adaptação oficial para inglês, pelo que se aplica o português. Como, se os juízes não sabem a nossa língua? Cabe às partes promover a tradução das disposições que considerem relevantes. O que pode dar em situações caricatas (e nada inocentes) como a de se traduzir «filhos» por «sons».

Goa, vários indianos não goeses, normalmente originários das elites económicas ou administrativas de Deli ou Bombaim. Queixam-se de os goeses os marginalizarem, de os tratarem como estranhos, de sobreporem a identidade goesa à identidade indiana. No fundo de sobreporem o conceito de elite local ao conceito de elite indiana – oh, tão mais importante em termos económicos, sociais, políticos, whatever.

Algures na Índia «profunda», os barbeiros revoltam-se. Um dos seus deveres ancestrais é o de, quando de um casamento da casta alta, lavarem os pés de todos os convidados masculinos. Não, dizem, é tempo de parar esta prática degradante. Recusam-se.

As consequências não se fazem esperar, ataques, asfixia económica pela perda de clientes, ameaças. A administração cala-se, fecha os olhos à retaliação das castas altas. O tempo passa mas os barbeiros persistem. A notícia chega à imprensa, começa a falar-se do assunto. Pressionada, a administração (diga-se, um collector qualquer) procura conciliar as partes. Com sucesso. Daí em diante os barbeiros só lavam os pés ao noivo e ao pai do noivo.

Conversa com um ancião de Bombaim fixado em Goa. Ele, diga-se de passagem, é de impecável extracto social e de casta. Exprime-se num inglês perfeito – quer dizer, magestático – e é profundo conhecedor de música e arte ocidental.

Digo-lhe (diálogo em inglês, é claro), «é-me indiferente a minha pronúncia do inglês, não perco tempo a corrigi-la, tenho mais com que me preocupar. Se algum falante de inglês me fizer alguma vez um reparo, respondo que podemos passar ao português se não estiver satisfeito. Garanto que se ele aceitar e falar melhor português do que eu falo inglês que vou imediatamente corrigir a minha pronúncia.» Após um momento pergunto, «Seria capaz de dizer o mesmo a um inglês ou americano?» Lacónico comprometido, «não».

Narmada. Todo e qualquer meio rural ou florestal onde há acção naxalita (ou onde esta não existe mas há condições para poder vir a existir). Requalificação de espaços urbanos.

Anos 70. Medidas de controlo de natalidade. Vai-se aos meios rurais e convencem-se os camponeses a aceitarem medidas. Não se explica que estas consistem na esterilização química irreversível. Arregimentam-se pessoas aos milhares para o efeito. Aqui, se a memória não me falha a iniciativa foi de Rajiv, filho de Indira, marido de Sonia.

Deradum. Visito a um colégio interno com um amigo, antigo aluno em dia dedicado aos antigos estudantes. É patente o orgulho de toda aquela rapaziada pelos anos que lá passaram.

Deradum, diga-se de passagem, é uma cidade tipicamente indiana: infraestrutura inexistente, milhões de pessoas, total ausência de vida cultural. Da porta para fora dos colégios. Desta para dentro estamos noutro mundo. Assim a modos de Escócia.

Museu de Arqueologia de Velha Goa, visita presidencial. Falo com uma personalidade indiana e discutimos acaloradamente. Tento, sem sucesso, explicar-lhe que Índia e União Indiana não são a mesma coisa. Faço a comparação com a Europa e a União Europeia. Não percebe. Índia é Índia, a de hoje é a de sempre.

Quando os ingleses saíram da Índia deixaram atrás de si uma manta de retalhos de pequenos e grandes estados, mais ou menos autónomos, que tinham vindo a integrar progressivamente num todo político único. Duraram dois dias.

Nunca esquecer o confronto de ideias entre «nativistas» e «nacionalistas» que se desenvolveu ao longo dos últimos anos da Índia britânica.

O que é que há de comum entre todos estes casos e mais uns dez que me viriam à memória sem a menor dificuldade? Todos eles representam uma mentalidade colonialista, viva, pertinaz e actuante nas elites indianas. Sete anos a lidar com a Índia que quer, pode e manda convenceram-me sem margem para dúvidas de que a Índia representa o triunfo do sistema colonial britânico. Um triunfo tão completo que o sistema sobreviveu, prosperou e cresceu sem precisar do colonialista para nada.

[Sérgio Mascarenhas]

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