Estávamos à espera de quê?

 

Artigo no Herald Tribune esta semana, do anterior subsecretário de Estado norte-americano para assuntos políticos, Nicholas Burns (confunde-se com o seu sucessor, William Burns, que veio agora de embaixador em Moscovo) http://www.hks.harvard.edu/news-events/news/commentary/our-friends-in-europe :

“Mr. Obama’s strongest weapon might be to signal subtly to the Europeans that, while they are still, of course, vital to the United States, the dramatically shifting balance of power in the world will direct America increasingly to see other regions as our primary strategic interest. While American leaders in the past looked to London, Paris, and Berlin as first responders to help us deal with the world’s problems, Obama and his successors may also look to Beijing, Delhi, Tokyo, and Brasilia as future global partners. (…) the world and American interests are shifting rapidly. The most dangerous challenges are in new places – principally in the volatile and unstable region linking the Middle East and South Asia.”

Pai queniano, mãe do Kansas (estado do Midwest ocidental, perfeitamente equidistante das duas costas), e nascido no Hawaii, 3200 km pelo Pacífico adentro. A mãe divorcia-se e casa com um indonésio, vivem quatro anos em Jakarta e voltam para o Hawaii. Os primeiros anos da universidade Obama até os passa em Los Angeles, antes de ir para Columbia. Já tinha portanto 20 anos quando chega a Nova Iorque, e sem quaisquer referências directas e pessoais da Europa. E Harvard é só sete anos depois disto… Ver imagem em tamanho real

Fixa-se por fim no Illinois, o grande estado do Midwest, o 5º mais populoso do país e 5º mais rico também, e que de europeu-europeu tem provavelmente só a grande comunidade de origem alemã… Boeing, Sears, Walgreen, Motorola e McDonalds são algumas das companhias com sede lá. É também, não por acaso, um dos principais destinos da diáspora indiana nos EUA.

Mas isso não interessa. O ponto é apenas o de a Europa prosseguir nesta convicção de que seremos sempre os nº1 para os Estados Unidos. É claro que continuará a ser referência imprescindível, política, cultural e economicamente. Mas por quanto tempo mais? Até pela própria demografia em mudança nos Estados Unidos, as origens europeias deixarão muito rapidamente de ser maioritárias.

  Nos EUA, nas ‘Revisions to the Standards for the Classification of Federal Data on Race and Ethnicity’ de 1997, descreve-se: “White. A person having origins in any of the original peoples of Europe, the Middle East, or North Africa.“. Assim também eu…

Mesmo assim, e segundo aqueles critérios algo vagos, em 2006 as estatísticas já indicavam um dos níveis mais baixos de população branca de sempre: 221 milhões, 74%. Baixaria para 198 milhões e 66%, se tirássemos os hispânicos brancos e os ‘latinos’. E ainda faltaria tirar os árabes….

A Europa será cada vez mais apenas uma referência histórica, e não uma realidade concreta do dia-a-dia dos americanos.

 

  Em ‘Audacity of Hope’, ouvimos aliás dizer isto num curso no MO um dia destes, não tem uma única vez a palavra Europa…

Neste mapa percebe-se melhor quem está no centro e na periferia, mas sobretudo quem está no centro… E é também evidente que os EUA para chegarem ao centro asiático é pelo Pacífico que vão.

 De um professor da UCLA, sobre o impacto dos asiáticos nestas eleições:

“Despite leaning toward Obama, Asian Americans do not traditionally join one party or another overall. I would say the number of Democrats outnumbers Republicans. But because so many Asian Americans are immigrants – about 60 percent nationwide – they rarely have a family tradition leading them to one party over another.
“Also, the parties have not really developed a platform or strategies to reach out to Asian Americans the way that they have, for example, with African Americans on the Democratic side or for religious conservatives on the Republican side.
“Vietnamese tend to be more conservative and tend to vote Republican, … Japanese Americans and Filipinos tend to be more Democratic. Chinese don’t affiliate in large numbers with either party. They tend to be independent or unaligned. But in the end, Asian American voters focus on issues that are strikingly similar to the general public.”

Já na Índia propriamente dita não será bem assim

 “Obama said yes we can, I say now we must“, disse Mallika Sarabhai, conhecida dançarina do Gujarat  que enquanto candidata independente está agora a enfrentar o próprio líder do BJP, L.K. Advani, em Gandhinagar, capital do estado. O seu chief minister Narendra Modi também não é propriamente amigo dela, desde as chacinas de 2002.

Mas voltando às relações dos EUA com a Ásia, ver este site do East-West Center, um think tank governamental sedeado no Hawaii (e que tem no seu board Tarun Das, ‘chief mentor’ da Confederação da Indústria Indiana): http://www.asiamattersforamerica.org/index.cfm?event=page.top10

E vejam também os números da balança comercial. Bem sei que isto é tudo pela rama, e há contextos e dados que não estão a ser considerados, (e só estamos a falar de balança comercial, não investimento directo ou sector financeiro), mas este mapa, por exemplo, mostra a vermelho os países com os quais os americanos têm superavit (à cabeça a Holanda e HKong, Portugal entalado entre Moçambique e Antigua…), e a amarelo os países que na verdade contam, ou seja, aqueles com balanças muito negativas para os americanos, a China tão à frente que os quatro seguintes (Canadá, Japão, México e Alemanha) juntos não a conseguem ultrapassar: http://tse.export.gov/MapFrameset.aspx?MapPage=NTDMapDisplay.aspx&UniqueURL=yxcfqiaj53gvt245dk2c5j45-2009-4-10-15-28-38.

Ver imagem em tamanho real

A seguir à China e ao Japão, só lá muito para trás vem o asiático seguinte, a Malásia, ao nível de Rússia, Argélia e Iraque. A verdade é que só China e Japão contam quase metade da balança negativa americana. Isto tem obviamente de reflectir qualquer coisa na política externa. Uma reacção vem do Quai d’Orsay; no site do MNE francês – e em inglês! – a importância da Ásia para a França: http://www.diplomatie.gouv.fr/en/country-files_156/asia_1956/introduction_1957/why-asia-matters_1349.html

Enfim.. Já agora, para rematar a história inicial, Nicholas Burns foi um dos braços direitos de Condy Rice nas negociações com Nova Delhi sobre o nuclear civil, há dois anos atrás: http://www.nytimes.com/cfr/world/slot2_20070802.html?_r=1&scp=7&sq=nicholas% .20burns&st=cse .

   Ele está agora em Harvard. Mas a história por enquanto acaba bem e a boa onda continua, agora com Richard Holbrooke, para maior nervosismo de alguns vizinhos, a apoiar os esforços indianos no Afeganistão: 

http://www.ft.com/cms/s/0/87c27fda-249d-11de-9a01-00144feabdc0.html   Ver imagem em tamanho real

 

 

PS – e se quisermos um mapa mais Índia-cêntrico, e já agora com Portugal menos nas extremidades:

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: