Excepção nenhuma, infelizmente

O suplemento de Economia do Expresso (sem ligação) de hoje tem as  páginas centrais dedicadas ao impacto da crise financeira global na economia indiana, fazendo também um balanço dos principais investimentos naquele mercado emergente.

É sempre bom haver quem dedique alguma atenção à Índia e o Jorge Nascimento Rodrigues é uma das poucas pessoas que, na comunicação social portuguesa, o tem feito de forma consistente (o seu livro sobre a Batalha de Diu foi aliás já aqui recomendado, e um outro traduzido pela sua editora – Made in India – está na bibliografia geral do curso).

Mas o artigo procura argumentar o inargumentável: que a Índia sai reforçada da crise, porque relativamente menos abalada do que as outras economias asiáticias. Vem lá o argumento clássico da menor dependência das exportações (em 1997 ainda fez sentido…), bem como a possibilidade de a crise vir mesmo a reforçar o processo de outsourcing para a Índia (provavelmente influenciado neste artigo).

Mas vamos lá ao essencial, ao fundamental, ao que realmente deveria estar a ser noticiado: mais ou menos, relativamente ou não, esta crise está a afectar a Índia de forma violenta. E é essa a notícia – impossível de camuflar (o artigo abre com o subtítulo absolutamente fantástico que a economia deverá crescer a quase 7% em 2009… mas nos parágrafos seguintes, descai-se e vêm as previsões “pessimistas” – e muito mais realistas – de que talvez nem se chegue aos 3%! De qualquer forma, what’s the point? – como é que é, neste momento de profunda incerteza, é possível e mesmo interessante prever qualquer crescimento que seja?)

Porque é que isto acontece, não só neste artigo, mas em geral, na imprensa ocidental? Acima de tudo, por causa das fontes – a grande maioria das fontes consultadas, e as citações demonstram-no bem, são indianas (embora surja lá também o Prof. Viassa Monteiro, orador na nossa segunda sessão). E a excepção é o João Caiado Guerreiro da CCPI, uma Câmara de Comércio, a que não convém naturalmente nada traçar um panorama negativo sobre o mercado que aqui procura vender.

Ora bem, para quem lê diariamente a imprensa económica  e de referência indiana é assustador o silêncio a que esta crise está a ser votada (falei disto na última aula). Não olhemos sequer para o Governo e as autoridades públicas – na opinião pública indiana não há ninguém que tenha feito uma análise consistente e vindo a público (claro, estamos a um mês de eleições nacionais) afirmar que, com esta crise, se desmorona (ou pelo menos adia) todo o “sonho da superpotência Índia 2020” que tem sido vendido aos indianos nos últimos anos.

Ninguém, nem o mais realista empresário indiano, irá neste momento dizer à comunicação social (ainda por cima estrangeira) que as coisas estão péssimas, como realmente estão. Num pacto tácito, continuam a vender o sonho, esperando que os investimentos ocidentais continuem, e esperam para ver.

Aliás, o próprio artigo contém pistas que apontam para esta realidade: acaba com um parágrafo que enumera os duros factos da realidade (“bolsa devastada” por uma queda de 60% desde Janeiro, sector imobiliário em queda de 30%, moeda desvalorizada em 25%)…. “mas não estamos numa situação de pânico”, conclui o artigo quase que ironicamente, citando  Rajesh Chakrabarti, da Indian Business School!

Sobre as “parcerias” portuguesas na Índia, o mapa parece sexy, e realmente com o panorama desolador de há uns 5 anos, hoje há muito mais presença económica na Índia. Mas reparem num detalhe, extremamente simbólico: a Aerosoles, está lá assinalada, em Chenai…: há uns anos o “caso de sucesso” de investimento português na Índia. Hoje…

Adenda: Versões alargadas da reportagem (mais moderadas, a começar pelo título já com um ponto de interrogação bem menos peremptório do que a capa do suplemento de Sábado…), adicionadas hoje, Segunda-feira,  aqui e aqui.

19 respostas a Excepção nenhuma, infelizmente

  1. outraindia diz:

    Outro detalhe do mapa é o vazio em Goa…

  2. jnr diz:

    Caro Constantino, não me compete fazer comentário nos artigos do Expresso – faço comentário, quando tenho algo a dizer, nos meus blogues. Foi ouvido um leque diversificado de pessoas, e online acrescentarei mais alguns – o artigo não reflecte artigo algum publicado em qualquer jornal ocidental. Foram dados elementos contraditórios sobre a situação, que cabe ao leitor ajuizar. Do seu curto comentário também não retirei argumento contrário específico nenhum. A não ser que há um pacto de silêncio e lóbis interessados no business. Um abraço, jorge

  3. Sérgio Mascarenhas diz:

    O problema do artigo é que plus ça change… Nas últimas eleições a Índia «nativista» derrotou o BJP e com ele as vozes da Índia «nacionalista». As mesmas vozes a que o artigo do Expresso dá espaço, precisamente porque são as únicas que verdadeiramente se ouvem fora da Índia. A derrota de há 4 anos não deixou marcas. Mas as razões da derrota ainda lá estão todas. É certo que a Sra. Gandi não conseguirá tirar a mesma cartola segunda vez. Mas a Índia «nativista» tem espaço – e muito – para mexer fora do sistema, o que aconteceu no Paquistão pode acontecer na Índia.

  4. Sérgio Mascarenhas diz:

    Isso e as sempre deslocadas comparação com a China. Lembram-me uma cerimónia aí por 2007 para o lançamento de um parque tecnológico em Taleigão ou coisa parecida. Vem um jovem deputado, representante da «nova guarda» e pelo meio ele sai-se com esta a propósito do tempo que as coisas levam a fazer na Índia (paráfrase aproximada): «Na China, quando o Centro dá uma ordem essa ordem é obedecida na periferia em 15 dias. Aqui isso não é possível, leva tempo. É assim porque a China é uma ditadura e nós somos uma democracia». Em suma, a China é eficiente porque é uma ditadura enquanto a Índia é infeciente porque é uma democracia. Dei por mim a pensar que aquele rapaz era jovem, inteligente, articulado, educado… e profundamente errado.

    Se a China é eficiente é por outra razão. É porque tem uma tradição de centralização burocrática com centenas, se não milhares, de anos. A tradição indiana é a da descentralização levada ao extremo.
    A China é uma ditadura porque pode ser, a sua tradição centralizadora e as estruturas administrativas ancestrais permitem a implementação de um regime ditaturial (e suspeito que a China é bem menos ditatorial do que se pensa no Ocidente).
    A Índia é uma democracia porque está condenada a sê-lo. A sua tradição de total descentralização e de equilíbrios de poder conjunturais assentes em barganhas políticas assim o impõe.
    Nem a eficiência chinesa é de hoje, nem a confusão indiana é de ontem. Ambas têm uma longa história por detrás.

  5. Constantino Xavier diz:

    Caro Jorge, obrigado pelo seu comentário – vou ver o material suplementar que vai publicar no seu blogue, mas mantenho a minha tese principal: a Índia *não* escapou à crise, ao contrário do que é noticiado na capa do suplemento e sugerido ao longo do texto. Abraço

  6. outraindia diz:

    Outro factor de empobrecimento relativo será o impacto da crise nas remessas dos emigrantes indianos, que foram cerca de 27 mil milhões de dólares em 2007, quase um sétimo do total mundial, segundo o Banco Mundial. As remessas de chineses e de mexicanos vêm levemente atrás, e a seguir as filipinas. Curiosamente temos as remessas para França em 5º lugar. De que tipo de pessoas serão, franceses-franceses..?

  7. outraindia diz:

    Outro factor de empobrecimento relativo será o impacto da crise nas remessas dos emigrantes indianos, que foram cerca de 27 mil milhões de dólares em 2007, quase um sétimo do total mundial, segundo o Banco Mundial. As remessas de chineses e de mexicanos vêm levemente atrás, e a seguir as filipinas. Curiosamente temos as remessas para França em 5º lugar. De que tipo de pessoas serão, franceses-franceses..? …jro

  8. Sérgio Mascarenhas diz:

    Bem visto. E as famosas benesses do regresso de expatriados à Índia não são assim tão fáceis de concretizar. Os «expats» nem sempre estão preparados para prosperar no sistema do país de origem. Nem este sistema está necessariamente preparado para os absorver. Eu conheço casos de indianos que passaram pelo Ocidente, voltaram à Índia, e acabaram por regressar ao Ocidente. E de indianos que voltaram para a Índia e não encontraram colocação ou que esta não foi tão imediata como desejariam.

  9. Constantino Xavier diz:

    Sobre a questão das remessas, e das relações Índia-diáspora, é naturalmente tempo de vacas magras. Se a Índia não depende ainda assim tanto como o Nepal das remessas (20% da riqueza nacional), não deixa de haver estados como o Kerala, Goa, Punjab, Gujerate ou Karnataka que dependem fortemente não só das remessas, mas também do IDE diaspórico.
    Aqui vão alguns factos que reuni ao longo da minha investigação em ND. Para quem estiver interessado, posso enviar a versão em pdf.

    – while up to the 1990s West Asia was the main source of foreign remittances received by India, over the last decade its regional share has receded to in-between 30 and 40 per cent, being overtaken by North America (Reserve Bank of India [RBI] 2006b: 1348)

    – efforts of the RBI to study foreign remittances and design specific incentives to increase their amount and maximise their utility for the Indian economy. It has ordered two different studies on remittances during the last five years, analysing their main source regions and their methods of transmission, cost and time (RBI 2006a, 2006b). Both suggest steps to direct them to productive ways, “the challenge being to transform them into investment” (SCEA 2007: 29)

    – financial contribution in the form of remittances, which for example account for around one fifth of Kerala’s state income (Kannan and Hari 2002)

    Sobre o IDE da diáspora (NRI):

    – Guha and Ray’s estimate (2000: 21) is the most widely accepted, noting that after climbing to a peak of 35% in 1993-94, NRI FDI maintained its share for the next two years and then began a precipitous decline, not merely in relative, but also in absolute, volumes

    – According to RBI figures NRI FDI inflows averaged just US$ 71 million a year between 1998-1999 and 2000-2001 (Desai et al. 2002: 24). In regard to their relative share, there are different estimates: Roy and Banerjee (2007): 4.2% between 1991 and 2003; Roy (2007): 4% in 2005; MOIA minister Vayalar Ravi (quoted in Bhagat 2007): less than 5% in 2007.

  10. alcipe diz:

    Bom, e faltou a presença em Deli da OLESA (moldes) e da joint venture da EFACEC… Só para registo!

  11. paipanandiker diz:

    The crisis is global, and as an integral part of the globe, India and Indians will be affected by the crisis.

    The Indian economy, unlike many other RDEs, is relatively closed (~15% dependent on exports and yes economic theory that applied in 1997 continues to be the same today!), with a high savings rate (~33% and growing), and with a higher dependence on domestic consumption. Further, India (for better or worse) has capital controls, with ~70% of the banking sector state owned, ensured a reduced exposure to credit-derivative swaps and related instruments, the crux of the crisis.

    The crisis really hit India, almost as a second wave, when companies started deleveraging in the west and had to liquidate positions in India to do so. This compounded with the RBI policy of tight monetary control (to control the out-of-control inflation of mid last year) and increasing reserve ratios, contributed to a “pseudo” liquidity crunch, leading to the stock market “crash”.

    There are factors that further exacerbated the situation – sources of corporate funding dried up ; reduced profits, higher interest rates (briefly), difficult access to ECBs, FCCBs and commercial trade credit made (and makes) for a difficult conjecture. Policy interventions have tried to counter the liquidity crunch, however, the “effects” are yet to be tangibly seen. For many companies, the crisis is manifesting as an acceleration of normal cyclical events, i.e. steadily growing material prices crashed in a hurry, inventories build-up, write-offs, etc. compounded with delayed expansion plans all contribute to a economic scenario of much lower growth. Clearly, there are sectors of the economy worse-off (in terms of the fall from grace than others) – retail, real estate, etc.

    The extent and severity of the crisis will be determined by a myriad of factors, corporate and governmental (and is anyone’s guess) and the complex confluence of these factors make it extremely difficult to answer either of those (except with my crystal ball!). All numbers, rigorous or not, are mere speculations and “opinions”;this, in spite of the individual biases and motivations of the intelligentsia.

    There are however fundamentals drivers that may mitigate the “crash”, especially in India (and other similar ones): (1) The occidental push to Low Cost Countries (LCCs) – there is clear evidence of accelerated growth both in manufacturing and IT post-2001 and other crashes in RDEs (2) Bottom line: long term growth potential much better in RDEs (3) Favorable demographics (4) Yes, India continues to be a “savings” country, though my personal experience is that the new gen. is tilting the balance (5) The government will grudgingly “open” the economy and (6) The banking sector will continue to be (largely) state-owned…Hence, relatively speaking, the conditions appear to be “better” to turn the corner.

  12. paipanandiker diz:

    Though Aerosoles may not be a “success story” anymore, they intend to maintain (if not grow) the Indian operations. (Effect earlier mentioned – transfer to LCCs)

  13. Sérgio Mascarenhas diz:

    Bons pontos Rahool. Eu acrescentaria mais um: padrão de consumo claramente diferente do ocidental. Um indiano e um ocidental que sejam comparáveis em todos os domínios divergem muito no padrão de consumo. Isto tem a ver com questões ligadas ao meio ambiente mas também com questões ligadas ao padrão cultural.

    Devo dizer que não sou um defensor do consumismo acéfalo que se instalou no nosso lado do mundo e que sempre achei que os indianos tinham muita razão no seu padrão mais «rarificado» (evito aqui usar os termos «consumista» ou «materialista» porque têm demasiado conotações e enviezamentos ideológicos). Ora esto também ajuda a Índia a lidar melhor com a crise.

    O problema é que a Índia está a sofre uma fortíssima mudança de padrões culturais adoptando de forma muito acelerada, sobretudo nas classes média-alta, os nossos padrões neste domínio. Resultado, suspeito que a crise vai bater forte para algumas secções da sociedade – classe média urbana em particular.

  14. ken5z9mana diz:

    e como cereja temos um novo governo na índia dentro de alguns meses… uma aliança encabeçada pelo bjp que caminho tomaria? Arun Shourie dizia há duas semanas:
    “We must grab the crisis by the forelocks, as we would grab time.
    Second, by now the remedies have to be sector-specific, location-specific, firm-specific. General-purpose deficits are no answer to the downturn into which we have been pushed.
    Third, we must think for ourselves. In particular, we must document the advice that was thrust down our throats over the years.
    Fourth, we must focus on working and reforming existing institutions and processes rather than on setting up yet another slew of institutions. For this purpose institutions like the Asian Development Bank, countries like India and others in South Asia should coordinate and sustain intellectual effort.”

  15. Constantino Xavier diz:

    Rahool: very insighful, sober and convincing analysis, hats off. Thank you and hope to see you commenting (and why not posting?) more often.

    Sérgio: “sempre achei que os indianos tinham muita razão no seu padrão mais «rarificado»”. 1º: o que entendes por este “padrão de consumo mais rarificado”? É a economia socialista e planeada, com a taxa de “crescimento hindu” entre os 3 e 4% até 1991? Ou é uma escolha mais normativa, recusando valores “consumistas ocidentais”? Pelo que observo na economia pós-reformas, o consumo da classe média indiana (urbana, economia formal) é tão pouco “rarificado” quanto as classes congéneres portuguesas ou outras nos seus respectivos períodos pós-reforma. Aliás, talvez seja mesmo ao contrário. E, excepto nos debates disciplinares económicos, não será despropositado falar em “ter razão” em relação a um padrão de consumo?

    É interessante que estas crises, acima de tudo, são sempre aproveitadas por retóricas identitárias, nacionais ou civilizacionais, e actualmente a Índia é terreno fértil para estes discursos: “já viram, materialistas e consumistas ocidentais, tramaram-se com esta crise, enquanto que nós, bons e espirituais ascetas asiáticas, conseguimos resistir porque (ainda) não capitulamos perante o vosso sistema decadente”. Sei que não partilhas desta perspectiva, mas falar em “ter razão” é meio caminho andado para legitimar este discurso muito em voga na Índia.

    Arun Shourie: um enorme vácuo intelectual, nem para uma análise sociológica do nacionalismo indiano tem interesse. O que é “we must think for ourselves” ou “coordinate and sustain intellectual effort”?!
    Retiro as minhas palavras: este discurso é absolutamente fenomenal para perceber como e quem é que pensa e manda na Índia de hoje.

  16. ken5z9mana diz:

    se estiverem mesmo interessados, foi tirado daqui, “because india deserves better”….
    http://friendsofbjp.org/category/columnists/arun-shourie/

  17. Sérgio Mascarenhas diz:

    Constantino, já falámos disso os dois: os indianos consomem menos por razões culturais. Por consumir menos quero dizer recorrer menos a matéria física para a mesma utilidade.
    Mede isto pelo padrão daquela medida aparentemente anedótica do impacto de os homens usarem gravata no consumo energético. Os indianos não usam talheres. As mulheres não têm botões, fechos nem apliques nos saris. Os homens sentem-se perfeitamente confortáveis sem casaco nem meias ou sapatos, bastando-se com umas sandálias. E por aí fora. Quer dizer, se se comparar uma família de classe média tradicional na Índia esta tem muito menos tralha à sua volta do que uma família europeia. Com níveis de conforto que não divergem por aí além.
    A razão a que me estou a referir não é assim a razão invocada nos discursos políticos, é a razão profunda que compara culturas e nos faz dizer, por exemplo, que os europeus têm razão na forma como vêm lidando há dois séculos ou três com as questões da igualdade dentro da sua sociedade.

    Mas as razões perdem-se e às vezes… pelas piores razões. O que dizes da actual classe média indiana é verdade. Eu mesmo o dizia acima: essa classe média está numa situação tramada pois vive num contexto indiano com padrões de referência cada vez mais ocidentais. Não dá.

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