O nariz de Boyle é genial

É verdade, o nariz de Boyle também cheirou bastante merda. Mas, ao contrário do que nos diz esta crítica azeda e injustificada (ler também as dezenas de comentários muito interessantes), não é um nariz de merda – é um nariz que cheira de tudo um pouco mas, acima de tudo, uma nova Índia.

Boyle consegue, de facto, a proeza de, em menos de duas horas, enumerar e explorar na tela praticamente todas as facetas mais negras da Índia de hoje. Está la tudo.

Está lá a galopante privatização dos espaços públicos de Bombaim, o desaparecimento das históricas Mills, os miúdos inofensivos a jogarem críquete a serem expulsos por polícias de cana em punho. O trânsito interminável representativo do colapso total das infra-estruturas urbanas, executadas sem segurança ou planeamento mínimo, mas com lucro máximo.

Está lá a polícia indiana cruel, obesa e corrupta, muitas vezes violadora dos direitos humanos, que recorre a choques eléctricos para torturar tão facilmente como preenche um formulário.

Está lá naturalmente a pobreza imunda e miserável, o lixo, as barracas intermináveis das favelas de Juhu que crescem incessantemente, com centenas de novos “outros” a chegarem diariamente do hinterland rural em que mais e mais agricultores sobre-endividados recorrem ao suicídio para escaparem à humilhação social.

Está lá o ensino público para além dos brilhantes IITs dos engenheiros, IIMs dos gestores e IISs dos cientistas. A sala de aula sobrelotada, os castigos físicos aplicados a Jamaal e ao seu irmão, as leituras de livros sobre três mosqueteiros franceses renascentistas totalmente despropositados nos subúrbios da Ásia do Sul do século XXI.

Na pessoa do host que apresenta e do público que assiste ao concurso, está lá a brutal condescendência, ironia e escárnio com que a classe média indiana olha para os outros (“ah, you are only a chaiwallah!“- risota geral), os “strivers”, que discrimina a espezinha, esquecendo-se que também já foi, um dia, como eles.  Que, ao ver Jamaal a moldar o seu próprio sucesso, a sua própria ascensão, procura enganá-lo, e depois o denuncia, insurgindo-se “It’s my show – it’s my fucking show“.

Está lá a merda, constantemente presente, nas latrinas públicas, na caça à assinatura de Bachchan – basta aliás ler Naipaul (An Area of Darkness), ou mesmo o mais recente Adiga (The White Tiger), para perceber que os dejectos e as fezes humanas informam necessariamente qualquer representação fidedigna da Índia contemporânea.

Está lá naquele raide que vitima a mãe de Jamaal, o violento nacionalismo hindu, o seu ódio anti-minorias, especialmente islamófobo (diz o host, com um olhar irónico para Jamaal, quando surge a questão sobre Rama: “religion, interesting!“). Mas tambem anti-Cristãos e anti-ocidental. Que varre a Índia perigosamente há duas décadas, com repercussões gravíssimas para a estabilidade e segurança interna. No filme, partilha créditos com o caso particular da xenofobia anti-imigrante do Shiv Sena, o movimento do orgulho marata que quer “Bombaim para os Mumbaikars”. Aquele raide é um soberbo “2 em 1”: contra imigrantes e contra muçulmanos.

Estão lá as crianças, vítimas de sempre, exploradas por gangues que lhes infligem macabras amputações e flagelos físicos para poderem render mais a cantar nas ruas (ver também o pedinte Monkey-Man em A Fine Balance, de R. Mistry). O recém-nascido que vale mais se estiver coberto de feridas e a chorar incessantemente.

Está lá a ignorância e desprezo a que Gandhi se encontra hoje condenado entre os indianos, os seus ensinamentos esquecidos, ultrapassados pela veloz “nova Índia” urbana e materialista, a sua importância reduzida a um par de sandálias e óculos, ou a uma face sorridente numa nota porca de mil rupias. (“Ghandiji – Oh, I’ve heard of him!“).

Está lá a prostituição infantil, as menores (embora geralmente nepalesas) exploradas como novas bailadeiras nos templos pós-modernos, caves iluminadas a flúor e animadas a batidas house, se não tiverem o azar de ir parar imediatamente ao maior “red light district” da Ásia.

Estão lá os turistas estrangeiros enganados, roubados e ridicularizados, vistos como as novas vacas sagradas ordenhadas sem escrúpulos por infinitos dólares e euros, num vale tudo que, por vezes, e mais e mais vezes, descamba na violação ou no homicídio.

Estão lá as novas mafias que dominam as urbes indianas, Bombaim em particular. Um sub-mundo luxuoso e florescente que vive da ilegalidade e de tráficos vários (droga, prostituição, influência, armas), muitas vezes confortavelmente incentivado pelas próprias estruturas do estado, e que depois ocasionalmente se transforma num monstro terrorista, como em 1993.

Está lá, por fim, a progressiva radicalização do Islão indiano, subtil, mas presente nas novas preces nocturnas e naquele grito final de Jamaal (“Allahu Akbar“, na versão original), deitado na banheira a transbordar de dinheiro – a religião como conforto que equilibra o progresso material pecaminoso.

Mas Boyle, sem deixar de nos apresentar estas Índias todas, também nos dá a conhecer uma outra, menos conhecida, mas igualmente importante para quem observa a rápida e ainda incerta transformação que o país atravessa actualmente.

Essa outra Índia é a da mobilidade social, em que as barreiras da casta e religião deixam de ser inultrapassáveis para relações amigas ou amorosas. Uma Índia em que o laço inter-religioso Latika-Jamaal encontra espaço para florescer.

Uma Índia em que as classes mais baixas, os miseráveis, não se limitam a persistir e a inovar para sobreviver, mas para emergir e progredir, reivindicando as suas próprias narrativas de sucesso. Em que o jeep que transporta o “milagre Jamaal”, acabado de ser torturado, a caminho da pergunta milionária final, é rodeado por multidões que, em vez de o invejar ou invectivarem, o celebram e apoiam. Em que toda a Índia, dos bairros de lata (que Latika prefere à loja de electrodomésticos para assistir ao programa final) às salas-de-estar ar condicionadas com os miúdos com pizza na mão em frente ao ecrã plasma, se une e reúne à volta do possível sucesso de Jamaal, que reconhece como seu, como o da nação inteira.

9 respostas a O nariz de Boyle é genial

  1. j. diz:

    excelente, bro. nada a acrescentar.

  2. Ronald Baroni diz:

    épa, grande polémica! ainda nao vi o filme, mas fiquei com vontade…
    grande post!
    hasta la pasta!
    r.b.

  3. Sérgio Mascarenhas diz:

    Concordo! Porém, alguns comentários:

    «Está lá a polícia indiana cruel, obesa e corrupta». Este é um dos aspectos interessantes do filme e que mostra como este deita um olhar «simpatetical» à Índia. É que a polícia é violenta; a polícia é brutal. Mas ela não é corrupta. É-lhe dada uma missão, deslindar um caso de fraude. Ela aceita o diagnóstico e age em conformidade. Mas é ela também que, exercendo os seus meios brutais, chega à conclusão de que não há fraude. Ela é, no seu contexto e com os meios que a sociedade lhe dá, honesta.

    «Está lá naturalmente a pobreza imunda e miserável». Mais uma vez, o olhar do filme é honesto e demonstra empatia com as pessoas que filma. Há pobreza e há imundicie. Mas a pobreza não é imunda. É uma pobreza que se lava, que lava a roupa, que organiza latrinas públicas.
    Esta é uma realidade indiana que merece ser realçada – e que o filme destaca: os indianos são gente limpa, com hábitos de higiene. E isto a todos os níveis da sociedade. Acontece apenas que há milhões que vivem em meios sem infraestruturas, onde os dejectos se acumulam, onde não há água potável corrente, etc. O indivíduo é forçado a viver no lixo, mas mesmo aí preserva hábitos de higiene entranhados.
    Ao contrário da pobreza europeia (ou criada pela Europa no novo e em velhos mundos), a pobreza indiana é limpa. O meio é que é sujo.

    «Está lá o ensino público para além dos brilhantes IITs dos engenheiros». Mais uma vez, o filme presta homenagem ao corpo humano que escolheu filmar. A escola de classe média onde a minha filha andou em Goa não era substancialmente diferente da escola do filme. As mesmas salas (apenas um pouco menos sobrelotadas); os mesmos meios materiais; os mesmos uniformes impecavelmente limpos; os mesmos professores. É daqui que vêm os «brilhantes IITs dos engenheiros», desta mole imensa. Num processo de trituração social que permite seleccionar os muito pouco «melhores» de entre uma massa imensa de base.

    « insurgindo-se “It’s my show – it’s my fucking show“». Ainda aqui um olhar atento e equitativo. Isto poderia suceder de facto em qualquer lado. Em Lisboa, Em Nova Iorque. Porque há meios onde os indianos não são de facto diferentes do «resto do mundo». O mundo replicado.

    «os dejectos e as fezes humanas informam necessariamente qualquer representação fidedigna da Índia contemporânea». Não só da Índia, de qualquer sociedade urbana. Passemos numa rua de Lisboa onde haja obras nos esgotos e damo-nos conta de que vivemos sobre a merda. Nós escondemo-la. Há quanto tempo, um século? Os indianos ainda aí não chegaram. Não tiveram as matanças das grandes guerras, as migrações maciças, a brutal redução da taxa de natalidade. Ainda aí não chegaram.

    «Está lá a ignorância e desprezo a que Gandhi se encontra hoje condenado». Mas merece Gandhi verdadeiramente mais? Não é ele apenas um ícone vazio, escolhido pelos novos poderes precisamente porque vazio? Onde todos se revêem (hoje até a extrema hindu que o matou!) precisamente porque não tem nada de substancial para oferecer à sociedade indiana?

    «Uma Índia em que o laço inter-religioso Latika-Jamaal encontra espaço para florescer». Nova? Ou regresso ao passado? Muito antes das invasões mogores os «mouros» chegaram à Índia pacificamente, nos patemarins e outros barcos de comércio. Fixaram-se pela via matrimonial. Tiveram filhos e partiram de regresso à origem, deixando atrás uma nova sociedade, os «mouros da terra».

    «multidões que, em vez de o invejar ou invectivarem, o celebram e apoiam.» E, num toque irónico mas tão realista, esboçam a iconificação, passo prévio para a divinização…

    Ora é este o grande sucesso «realista» do filme, o de dar crédito, de ter um olhar amigo, de reconhecer o que há de profundamente humano nas grandes massas indianas. São gente.

  4. Denise diz:

    Gostei muito desta análise. Assim que puder divulgá-lá-ei no RG.
    Excelente regresso à blogosfera. Para além de rica, ficou tb mais bonita😉
    Um abraço

  5. outraindia diz:

    RG..?? …jro

  6. Denise diz:

    Upppaaa! Vim no rasto do A Vida em Deli (daí a referência ao regresso à blogosfera e ao facto de, por isso, ela ter ficasdo mais boniat :-P). Só agora percebi que este é um blogue colectivo. Peço desculpa por me ter precipitado.
    Aproveito para dizer que estou a gostar do As Outras Índias. É uma pena eu não poder frequentar o curso… vicissitudes de quem mora na província…
    Continuação de bom trabalho.

    (P.S. RG = Rabiscos e Garatujas)

  7. Sérgio Mascarenhas diz:

    Particularmente interessantes alguns comentários:

    Ambos pela mesma pessoa que quer demonstrar que o director não conhece a realidade que filma:
    «have the actors speak hindi».
    «making the couple kiss bang in between busy mumbai streets».
    Quem escreve também não conhece a realidade que filma e não compreende o filme:
    As crianças de Bombaim não falam hindi.
    E Boyle sabe seguramente que os indianos não se beijam em público numa cidade onde o extremismo hindu se entretém a bater em namorados por «ofensas» bem menos «graves».

    «that cheesy Bollywood ending with the singing and dancing just killed any attempt at raising any kind of consciousness or serious debate».
    Mas o fim não é a dança. (Quem escreveu isto pode ser perdoado, pois se até um amigo meu, cinéfilo «profissional», cometeu o mesmo erro!) O fim do filme é o «couple kiss bang in between busy mumbai streets». Ora no contexto indiano isto é um claro «attempt at raising any kind of consciousness or serious debate». Porque no cinema indiano não há beijos, menos ainda a acabar um filme e menos ainda – sacrilégio supremo – pedidos pela mulher.

  8. ken5z9mana diz:

    BBC hoje: The father of a Slumdog Millionaire child actress has denied trying to sell her in what he called a “dirty” undercover operation by a UK newspaper. Rafiq Qureshi said he had not accepted a deal to sell nine-year-old Rubina Ali into adoption.

    The News of the World said Mr Qureshi had demanded £200,000 from its reporters, who were posing as a wealthy family from Dubai looking to adopt. Mr Qureshi told the BBC the media had “made fun of our poverty”. “They tricked us into this fakery but we came out unscathed,” said Rubina’s father, who is a carpenter in Mumbai (Bombay).

    Rubina portrays the youngest version of the leading lady Latika in the Oscar-laden film.

    The News of the World said that one of its staff had contacted Mr Qureshi and told him he was acting for a wealthy Arab sheikh who wanted to adopt Rubina and take her to live in Dubai. It said Mr Qureshi’s brother-in-law, Rajan More, who speaks better English, had talked of “around £50,000” in compensation. It occurred to me they were making a deal on my child. I put the phone down and told them we were leaving the hotel. The paper said that in a later meeting Mr Qureshi tried to increase this to £200,000 ($292,000). (…)

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